28 de janeiro de 2006

O que se vai



O frio gume à jugular,
O fio de sangue que o veste ...
Completam-se.

Uma neblina me punge,
Descarto manhãs
E amanhãs ...
Esvaio.

Um sentimento,
Da perda capital
Do que não tive,
O reconheço,
Não sou de mim ...
Levito.

Na verdade plena
Que se me revela,
Inteiro-me.
Sei quem fui,
Sei quem sou.

O que se vai
Sem nunca,
Realmente,
Ter vindo .

20 de janeiro de 2006

Hoje



Hoje morreu
Um cultor
De poéticas perenes.
Ninguém o soube,
Hão de saber um dia,
Sentirão mais
Do que se nesse instante
Soubessem que alguém
De tal porte partiu.

Morreu
Um qualquer
Como tantos,
Sem posse de matéria
Que o dignificasse
Ante os seus,
Sem o tesouro
De uma amizade real,
Ascendência
E descendências abjetas,
Sem amor
Que valesse lembrar,
Ao seu entorno
Apenas carpe
A fiel companheira
De todo sempre,
Sua amarga solidão.

Hoje morreu
Uma insanidade
Que ousou
Propagar versos,
Cantar palavras,
Semear sentimentos,
Persistiu
Menino acordado
A engenhar sonhos.

Morreu
Uma abominável
Anomalia
Que não antevia
Meio palmo
Além da sua inocência
De espírito,
Um corpo que
Vestia todas as almas,
Pasteurizava dores,
Vertia vida.
Um pintor que matizou
O desvario cotidiano.

Hoje morreu
Uma pobre
Rica humanidade
Que redimiu
Com gênio e arte
A espécie inculta
Que o pariu.

17 de janeiro de 2006

Perdoas-me


Perdoas-me
Não me ver
Como gostarias,
Não mais ser
O dos teus sonhos,
.
Não mais poder
Mudar tua vida,
Fazendo-te crer
O que nunca foste.
.
Perdoas-me
O que não te fiz,
Pelo que te fizeram,
Por minha ausência
Quando te esculpiram
O que és.
.
Perdoas-me
Quando te falo
E te calas,
Quando durmo
E me exiges
Olhos despertos,
Quando dizes:
"Meu domingo
É dia de chorar!"
.
Perdoas-me
Quando te afago,
Sorrisos amores,
E tua tensão se despe,
Quando me veste
Profunda aflição dolorida,
Como se eu fosse
O culpado
De tão grandes pesares.
.
Perdoas-me
Doer além de ti,
Em mim,
A dor maior
Dos teus males.
.
Perdoas-me
Por me perdoares ...

15 de janeiro de 2006

Vento e suspiro


Sou gota solitária,
Fruto do teu suor,
Que escorre
Entre teus seios.

Sou mão
Que apalpa tuas costas,
Sou frenesi arrepio,
Eu sou.

Sou o que te toma nos braços,
Se embriaga com teus beijos,
O que não esperavas,
Sou acaso.

Brasa
Que derrete teus pudores.
Gelo
Que perpetua o momento.
Vento
Que carrega teus suspiros
Aos confins do teu prazer.

Terno, passageiro,
Que te invade,
Com teu consentimento,
Que se evade,
Que se esvai ...

14 de janeiro de 2006

Doces mentiras


Despertas-me o corpo,
Incitas-me a alma,
Sensibilizas-me
Como jamais supus
Pudessem fazê-lo.

Tuas palavras,
Pensamentos versos,
Alforriam meus instintos,
Desatam-me a vontade,
Descobrem-me desejos,
Purgam medos,
Que tremo descobri-los.

Fluida torrente, incandescente,
Mana-me às entranhas,
Avivam-me pêlos e pele.

Fecho os olhos, vejo-te,
Afogueiam-me os braços,
Abraças-me.
Relaxo o corpo
Penetras-me
Sem saber
Se te quero ou não.
Comprimo-te, és meu cativo,
Sintas-me,
Também sou tua.

Afagas-me
Com o som
Do teu canto,
Encantas-me.
Fundes-me
A epiderme
Com a forja
Dos teus sentimentos,
Molde meu corpo.

Inundas-me e afogas-me
Com tua torrente.
Faças-me serva ou rainha
Dos teus impérios,
Pouco me importo
Posseiro, por ora,
De mim.

Fitas-me, fartas-me
Arrebatas-me.
Se tiveres que mentir
Segredas-me
Tuas mais doces mentiras
Mas faças-me feliz
Como nunca me fiz,
Nesta fração única
Da minha existência,
Meu poeta ...

Casa vazia

O afago que não me houve,
A meia frase açoite
Da ofensa inteira ...

Abro minhas janelas,
Casa vazia,
Para libertar fantasmas.

Em que momento da vida
Dei o passo além de mim
Já não me importo.
Se calei quando da afronta
Foi porque cri.
Transformei-me
Em baças imagens reflexas,
Pedaços sem conta
Que jazeram aos meus pés
Do espelho que se quedou.

Se te amo

Como te exigir
O monopólio do corpo
Ou do teu amor,
Ousar-me habitante exclusivo
Dos teus sonhos e desejos,
Descolorir tuas fantasias,
Desluzir o fogo
Que ascende e queima
Tuas artérias e tez?

Como te tirar
A possibilidade
De uma efêmera paixão,
Jogar por terra
Um teu êxtase possível
Pela descoberta
De um sorriso
Mais que lindo,
Num momento só para ti?

Como te tiranizar,
Tenaz ao teu lado,
Imaginar-me teu destino único,
Se o que te tenho
É sem medida?

Não me ocorre,
Nunca me ocorrerá,
Sentir-me dono da tua vida
Ou consciência,
Não saberia fazê-lo.

Quero tudo
Que de melhor te possa vir,
Mesmo que para isso
Seja preciso que me parta,
Ou me vá,
Em mil pedaços ...

Do que se foi


Enganas-te
Profundamente
Se achas que
O que se foi,
Se volta,
Será o mesmo
Que deixaste.

Ao voltar
Terás,
Do que se foi,
Um pouco mais,
Ou menos um pouco,
Mas jamais
A identidade perfeita
Da tua lembrança
Ida.

Sangrar



Se admitires sangrar
Equilibra-te no fio
De um dos gumes
Da tua própria lâmina.

Por instinto saberás
O tamanho e conveniência
Dos teus passos.

Modelares a forma da tua morte
É a parte melhor
Da tua existência.

Distante


Ao me saber distante, ido,
Se me quiser próximo
Nesse instante,
Não lances teus olhos
Para o horizonte infindo,
Jamais estarei ali.

Cerre as pálpebras,
Inspire profundamente,
E me verás tão nítido,
Tão imo,
Que descobrirás, finalmente,
Que nunca me fui, ou vou,
De ti.

Nos olhos


Pernoitas num covil
E não te reconheces
Por dentre os de tua espécie.

Cravas teu veneno
Na jugular do meu amor
Mas antes ...
Olhes-me nos olhos.

Não me espreites,
Não serpeies,
Não te dissimules.

Discernes-me
Na bruma cotidiana
Em que te ocultas.

Sou teu antídoto
De ti.