3 de agosto de 2006

Ouração

Rosnai por mim,
O das palavras pescador,
Senhor dos que não crêem,
Por este que nunca ourou por vós.
.
Vinde a mim,
Acorrei-me, criancinhas,
Famélicas, sórdidas,
Sem manhãs,
Depressa recadarem
À Santa,
Virgem em alma,
Que cheguei.
.
Quero seu corpo devasso,
Carne que me apraz,
Para livrar-me do mal
Que se me abate.
.
Amem.

Eu em ti

Quem te conferiu o direito
De te desfazeres do que não te pertence?
.
Quem te denominas para que te ocorra
Se é muito ou pouco o que te dou?
.
Saiba,
Atente bem para isto,
Pobre alma rica em soberba,
Que teu coração sou Eu,
Tua mente uma fração ínfima da minha,
Tua sensibilidade sou Eu que te dou
Até a limite em que a possas suportar,
Tua vida, a que veio,
Que por enquanto não te há,
Teu destino,
Só a terá
Quando não mais fores o que te supões.
Não és dono nem dos teus membros
Quanto mais dos teus escritos.
.
Dispa-te das tuas dores,
Negues-te por vidas outras,
Não te cales ante à blasfêmia e injustiça,
Semeie sonhos em meio ao deserto que escalda,
Mesmo que colhas blasfêmia.
Um dia teu verbo regará sementes de luz
Em áridos corações, até em baldias cidades,
Tuas palavras saciarão a sede
Dos mais húmiles espíritos.
.
Então,
Morando Eu ainda em ti,
Sim, serás
Tão grande quantos poucos foram
E te revelarás
Enfim
Quem és.

Desse tempo

Sorrio pensamentos que me ocorrem,
Supostos tristes quais nunca os foram ...
.
Há realeza no irreal que me cerca,
Uma fantasia verdade latente,
Ocultada, fadada,
Maquiada de opostos
Por sobre opostos,
Pronta a realizar-se,
Independe de mim, a pressinto.
.
Sentimentos despertos,
Que nunca me habitaram,
Propagam-se pólens ao vento,
Germinam frutos alimentos versos
Que saciam a fome de algo ou alguém
Que desconheço.
.
Volto a cara,
Nada de meu reconheço,
Pegadas, sombras ou asas ...
.
Aonde foram parar
Vidas lembranças,
Se é que as tive ou vivi,
De onde surgiu o que me cerca?
Pasmo!
.
Não sou daqui nem deste tempo,
A imagem que tenho não é minha,
O corpo que me porta ...
.
Não sou eu!